5.º Centenário do Nascimento de Luís de Camões, o nosso poeta

5.º Centenário do Nascimento de Luís de Camões, o nosso poeta

“Ditosa esta alma vossa, que quisestes
em posse pôr de prenda tão subida,
como, Senhora, foi a que me destes”.

(Excerto de Soneto – Quem presumir, Senhora, de Louvar-vos”)

Leio este “Magnificat”, escrito há 480 anos, por um jovem de 20. Um génio no seu princípio, o despontar de uma obra prolífica.

Passou um quarto de século no terceiro milénio e celebramos, em Comunidade, o 5.º centenário do nascimento de Luís de Camões e o Jubileu de 2025. “Peregrinantes in Spem”.

Encorajado nesta fé e expectativa, mergulho por entre os livros: “Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa, à Mouraria, escudeiro, de 25 anos, barbirruivo. Trouxe por fiador seu pai. Vai na nau de S. Pedro dos Burgaleses”.

O ano é de 1550, ano de Jubileu. Luís de Camões tem por contemporâneos, Michelangelo, Ticiano, Francisco de Holanda, Damião de Góis, Garcia de Orta, Rabelais e Monteverdi.

Vulto literário, o nosso poeta é a expressão máxima deste Renascimento, humanista, cosmopolita e ultramarino.

“Metido tenho a mão na consciência
e não falo senão verdades puras
que m’ensinou a viva experiência”.

(Excerto do soneto – Conversação doméstica afeiçoa)

Documentos autênticos sobre a vida do poeta, originais e livres de contestação, conhecem-se sete: o perdão do rei pela cutilada na cabeça de Gonçalo Borges, a aprovação do privilégio da publicação dos Lusíadas e o alvará da tença de 15.000 reis anuais, durante três anos e as quatro subsequentes prorrogações.

Nesta demanda biográfica todas as outras fontes são menos límpidas. Impõe-se a tradição dos primeiros biógrafos, turvada por alguns mitos e lendas.

No Museu das Artes de Sintra, encontramos uma das mais importantes Camonianas de sempre, composta por um notável conjunto expositivo. Aqui pode ser vista a cópia fidelíssima do primeiro retrato do poeta.

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Mais à frente, a primeira edição de Os Lusíadas, pinturas e desenhos inéditos de Domingos Sequeira, Francisco Metrass e Enrique Casanova.

“Já a vista, pouco e pouco, se desterra
Daqueles pátrios montes, que ficavam;
Ficava o caro Tejo e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.”

(Excerto da estrofe 3 do Canto V, Os Lusíadas)

Entre o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém espessa-se o nevoeiro. Daqui partiu o navegador, daqui partiu o poeta… Aqui repousam ambos no mosteiro.

Camões cantou as paixões humanas de uma forma incomparável, numa voz burilada pela vida intensa, sofrida e aventurosa. Dedicou a obra ao Rei D. Sebastião, desaparecido na caruja de uma batalha sem sentido.

No Tejo, em maré baixa, já não há tágides, nem naus ou caravelas. A neblina dissolve-se ao meio-dia, de onde o desejado, ao alto, faz trocar chapéus de chuva por outros de sol.

Nestas margens caminham mil nações, pais, filhos, turistas, desportistas e namorados.

Peregrinos na esperança num lugar onde a língua é pátria aberta e universal.

Na cadência e enlevo das águas, neste estuário, vejo a casa das tuas musas e nas tuas palavras um epílogo.

“E, se meus rudes versos podem tanto,
que possam prometer-te longa história
daquele amor tão puro e verdadeiro;

celebrada serás sempre em meu canto
porque enquanto no mundo houver memória,
será minha escrita teu letreiro”.

Fotografia: João Ramalho

Publicado no Boletim Salesiano n.º 608 de março/abril de 2025

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