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Corações em Construção: Um Olhar Sobre os Desafios Emocionais da Adolescência

Nas últimas semanas, muitos de nós fomos profundamente tocados pela série Adolescência, da Netflix. Esta série espelha, com sensibilidade e realismo, não apenas as vivências dos adolescentes, mas também os dilemas e as inquietações das famílias e das escolas que os acompanham. Ao fazê-lo, convida-nos a parar para escutar o que os jovens sentem por dentro e a refletir, com mais atenção e empatia, sobre os desafios que o mundo de hoje coloca aos seus corações ainda em construção.

Os episódios não nos oferecem respostas prontas, mas mostram com honestidade e intensidade aquilo que tantos jovens sentem e, não poucas vezes, têm dificuldade em exprimir de forma saudável: dúvidas, pressões, solidão, medo de falhar e uma enorme necessidade de serem vistos, escutados e compreendidos. Esta exposição frontal e comovente não nos deixa indiferentes. Pelo contrário, interpela-nos e inquieta-nos no nosso papel e no modo como poderemosmelhor caminhar com eles.

Enquanto psicóloga clínica, acompanho diariamente adolescentes e as suas famílias – em especial aqueles que vivem situações de maior vulnerabilidade ou que, por diferentes razões, já se encontram em situação de risco ou perigo. Ouvir os seus silêncios e as suas palavras apressadas, as suas histórias de conflito e também as de amor, as suas vitórias pequenas que são, tantas vezes, conquistas imensas, permite-me compreender, não apenas com o conhecimento técnico, mas sobretudo com o coração, o quão desafiante – e essencial – é estar ao lado de quem está a crescer.

Todos reconhecemos que a adolescência é uma etapa de profundas transformações – físicas, emocionais, cognitivas, sociais. É como se tudo estivesse a mudar ao mesmo tempo, num corpo que se estranha e numa cabeça que ainda não consegue organizar tudo o que sente. Do ponto de vista psicológico, há uma intensa reorganização do cérebro: as emoções ganham força antes que a razão consiga moderá-las. É por isso que, muitas vezes, os adolescentes parecem reagir “a quente”, tomar decisões impulsivas ou sentir tudo “demais”. Não é exagero, nem imaturidade – são simplesmente corações em construção e a aprender a crescer por dentro.

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Nesta etapa do crescimento, os adolescentes procuram quem são. Testam os limites, experimentam formas de estar, desafiam quem os rodeia – não por rebeldia sem sentido, mas como parte natural de um processo de construção identitária. Neste processo de desenvolvimento, também procuram aceitação – em casa, entre amigos, nas redes sociais, no mundo. A série retrata bem esse movimento: jovens que precisam de pertencer, de se sentirem válidos e amados. No mundo atual, dominado por tecnologias que aproximam e que afastam ao mesmo tempo, estes desafios ganham uma nova complexidade e, por isso, precisam ainda mais da nossa presença.

Com um olhar clínico, mas sobretudo profundamente humano e maternal, reconheço a solidão disfarçada com que muitos jovens vivem. Rodeados de pessoas – que conhecem na vida real, mas também no mundo virtual – apresentam a sensação de não serem compreendidos por ninguém. É aqui que nós, adultos, podemos fazer toda a diferença.

Pais, mães, professores, educadores – todos temos um papel essencial. Não para oferecermos todas as respostas – porque não as temos – mas para estarmos presentes. Para escutarmos com tempo. Para não minimizarmos aquilo que nos parece pequeno, mas que para eles é enorme. Para lembrarmos que o amor não se perde nas discussões e que a confiança pode ser (re)construída. Para mostrar que não é preciso ser perfeito para se ser merecedor de cuidado, de presença e de afeto.

Este caminho nem sempre é fácil, é verdade. Às vezes, o adolescente afasta-se, fecha-se, responde com agressividade ou indiferença. Contudo, é precisamente nesses momentos que mais precisa de nós. E se sentirmos que não estamos a conseguir chegar até ele, é importante sabermos que não precisamos de o fazer sozinhos, que há sempre uma saída e que uma ajuda profissional pode e deve ser procurada, principalmente quando percebemos alguns sinais que nos despertam mais alarme. Quando um jovem se sente, na maioria dos dias, triste, isolado, com raiva do mundo ou de si próprio, quando começa a evitar tudo o que antes gostava, a falar (ou a calar) coisas que nos preocupam… é preciso agir. Com serenidade, com responsabilidade e, acima de tudo, com amor.

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Dom Bosco dizia que “a educação é coisa do coração”. Esta frase tão simples e bela aponta-nos a direção a seguir neste caminho cheio de desafios. Uma direção que, mais do que olhar para um jovem e corrigir os seus comportamentos, nos impele a conhecer a sua história, os seus medos, os seus sonhos e até tudo aquilo que ainda não sabe dizer, mas que já precisa de ser escutado.

Estes desafios podem levar-nos à tentação de olharmos para a adolescência como um problema a resolver – não o é. É uma fase exigente, mas também maravilhosa e cheia de possibilidades. É um tempo em que cada jovem nos coloca, à sua maneira, uma pergunta, tantas vezes, silenciosa: “Vais caminhar comigo?”. Que saibamos responder “Sim”, mesmo nos dias difíceis. Que este nosso “Sim” seja acompanhado de presença, de escuta e de esperança, porque, como Dom Bosco tão bem nos inspirou, é na confiança amorosa, dedicada e perseverante dos adultos que os corações dos nossos adolescentes encontram um espaço seguro para crescer.


Na próxima semana: Corações em Construção: A Família como Porto Seguro na Adolescência

Diana Almeida
Mãe de uma menina cheia de vida
Irmã mais velha, com coração de mãe, de uma jovem cheia de sonhos
Psicóloga especialista em Psicologia Clínica e da Saúde e em Psicologia Comunitária